Me falta uma coisa. É estranho pensar que me falta logo isso.
Parece ser comum em tanta gente. Pior! a falta me parece incoerente.
Eu juro que tento procurar lá no fundo. Reviro aquelas velhas gavetas.
Levanto a poeira do sotão procurando minha coisa que falta.
Me sinto culpada por me faltar. Meio estranha. Meio esquisita.
Penso que existem pessoas que são assim mesmo. Nelas não existe a falta.
Existe apenas um simples não-querer. Mas em mim nada é simples.
Nasci sofrendo do mal pior: complexidade cognitiva crônica.
Popularmente conhecido como "pensar difícil".
Assim, quando uma coisa falta, tudo fica mais complicado.
Ainda mais se é uma coisa importante. Como sei que é importante?
Porque todo mundo diz que é. Não. Não que eu me importe muito com o que todo mundo diz.
Mas é que nesse caso é "todo mundo" mesmo. Os deuses, a natureza, as celulas, a vida em si. Aí fica difícil contestar!
Então fico aqui com os meus "eus" procurando minha coisa perdida.
É meus "eus" mesmo. Quem sofre de "pensar difícil" não tem botões. Só tem "eus".
Quer saber o que é "eus"? Pergunta pra Lili, não quero falar disso agora.
Estou ocupada procurando minha coisa que falta.
O mais engraçado é que essa coisa só falta parcialmente. É como ter metade de uma coisa que se deveria ter inteira. Eu tenho só a parte que me permite saber que a coisa falta.
Dizem que é assim um instinto, um desejo incontestável, uma certeza de querer mesmo sem saber como é. É meio parecido com sobreviver. Isso é o que dizem, né?
Sei não. Como posso explicar se é uma coisa que me falta.
Em alguns momentos percebo que não é, exatamente, que me falte essa coisa. Eu tenho, só não sei onde está. Percebo isso quando sinto por alguem esse carinho cuidadoso e preocupado que só mãe sente. É... Essa coisa que falta tem a ver com isso,com essa coisa de ser mãe.
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